MEDIAÇÃO TÉCNICA E COMENTÁRIOS DE VÍDEO DO KWAI SOBRE CORINHO DE FOGO: um estudo de caso

KWAI’S TECHNICAL MEDIATION AND VIDEO COMMENTARY
 ON CORINHO DE FOGO: a case study

 

Nilson dos Santos Soares*

Tarcísio de Sá Cardoso **

 

DOI: https://doi.org/10.46906/caos.n34.72628.p110-132

 

Resumo

Este estudo investiga como a plataforma Kwai medeia a fruição digital de corinhos de fogo e como os usuários se expressam sobre o fenômeno. A pesquisa, de natureza qualitativa, analisou comentários de um vídeo popular na plataforma, utilizando técnicas de raspagem e análise de dados textuais. Os resultados indicam que a interface do Kwai e a interação dos usuários moldam a percepção e a disseminação dos corinhos de fogo. Os comentários revelam uma diversidade de reações, desde aprovação até críticas e comparações com outras religiões. A plataforma, por sua vez, amplifica essas vozes, criando um espaço de debate e confronto de ideias. A análise evidencia que a mediação técnica é fundamental para entender o fenômeno dos corinhos de fogo na era digital. A plataforma não é um mero canal de transmissão, mas um agente ativo que molda as interações e as percepções dos usuários. Os comentários, por sua vez, revelam as tensões e as complexidades da religiosidade evangélica pentecostal contemporânea, evidenciando a importância de analisar as práticas religiosas sob a lente das tecnologias digitais.

Palavras-chave: corinhos de fogo; plataforma Kwai; mediação técnica; religiosidade digital.

 

Abstract

This study investigates how the Kwai platform mediates the digital enjoyment of praise of fire and how users express themselves about the phenomenon. The research, of a qualitative nature, analyzed comments on a popular video on the platform, using scraping techniques and textual data analysis. The results indicate that the Kwai interface and user interactions shape the perception and dissemination of choirs of fire. The comments reveal a diversity of reactions, from approval to criticism and comparisons with other religions. The platform, in turn, amplifies these voices, creating a space for debate and confrontation of ideas. The analysis shows that technical mediation is fundamental to understanding the phenomenon of choirs of fire in the digital age. The platform is not a mere transmission channel, but an active agent that shapes users' interactions and perceptions. The comments, in turn, reveal the tensions and complexities of contemporary Pentecostal evangelical religiosity, highlighting the importance of analyzing religious practices through the lens of digital technologies.

Keywords: fire praise; Kwai platform; technical mediation; digital religiosity.

 

Introdução

 

Os corinhos de fogo são parte da cultura evangélica contemporânea, mais especificamente relacionada à música gospel pentecostal[1]. Expressos como apresentações musicais, esses hinos religiosos, geralmente, são cantados e acompanhados por instrumentos musicais percussivos, funcionando como rituais coletivos, nos quais a repetição e a intensidade musical promovem uma fruição religiosa bastante específica na comunidade de fiéis que vão aos cultos. Segundo Albuquerque Júnior (2014), o fenômeno não é recorrente em todas as igrejas pentecostais, porém é comum em denominações situadas em áreas periféricas urbanas. Corroborando com essa proposta, há outra análise interessante, de Pereira (2020), que apresenta o corinho de fogo como um coro ruidoso que desenha um cenário sonoro com algumas especificidades, como o som das palmas, o burburinho das orações, os brados de aleluia e a efusiva celebração de guerra espiritual. Em determinados momentos, é possível perceber movimentos bruscos e danças giratórias, “movimentos semelhantes ao que ocorrem em cerimônias de umbanda e candomblé [...] e a presença de instrumentos baratos, ou às vezes só o pandeiro, compõem este formato de ritual evangélico” (Lopes, 2022, p. 64). As letras pouco falam sobre adoração; falam mais de manifestações do divino entre os humanos, tendo como temas principais a luta entre o bem e o mal e Deus contra o diabo, cujo poder de Deus é reconhecido como fogo, fogo divino, roda de fogo, e é isso que gera o nome Corinho de Fogo.

No entanto, acompanhando a midiatização e a reconfiguração de todas as esferas sociais da vida a partir das mídias, especialmente a digital, a fruição dos corinhos de fogo também é feita através de mediações técnicas. Nesse sentido, a capilaridade das plataformas digitais ampliou o alcance desse fenômeno, permitindo que ele transcendesse as barreiras geográficas e culturais, criando uma rede dinâmica de conexões entre indivíduos e comunidades. Dentro desse contexto da experiência artística, mediada pelas plataformas digitais, este artigo — parte de um projeto de pesquisa em desenvolvimento — coloca dois questionamentos: (1) como as mediações sociotécnicas da plataforma Kwai agem na fruição audiovisual e digital do corinho de fogo pelos usuários? (2) Como podemos caracterizar os temas que emergem destes usuários que se expressam verbalmente na forma de comentários de vídeos nessas plataformas?

Para lidar com tais questões, identificamos duas hipóteses, relacionadas com a primeira e a segunda questão, respectivamente: (a) por um lado, parece-nos que características da plataforma Kwai, especialmente a sua interface de interação — que exibe o vídeo e comentários — e suas interações por inteligência artificial nos comentários — segundo a própria plataforma Kwai — influenciam a interação do público com o vídeo selecionado; (b) por outro lado, a respeito da expressão verbal dos temas que emergem nos comentários dos usuários, pensamos que tratam, de um modo geral, de emoções bastante espontâneas e expressam não tanto os sentimentos positivos relacionados ao louvor à divindade que, inegavelmente, a comunidade de fiéis tanto valoriza, mas, sobretudo, a sentimentos negativos, inclusive de intolerância religiosa, que parecem associar as religiões da matriz africana ao campo semântico negativo, bem como criticar o próprio corinho de fogo, enquanto dança e música, representado no vídeo.

Para verificar estas hipóteses, propomos articular uma metodologia de revisão bibliográfica — mais importante para a questão (1) e a hipótese (a) — com uma metodologia qualitativa sobre os comentários do vídeo selecionado como estudo de caso,  que deve responder à questão (2) e verificar a hipótese (b). No que se refere à revisão de literatura, daremos ênfase às bibliografias que destacam a agência do digital, especialmente o tema da mediação técnica e o neomaterialismo[2], a partir da base teórica de Bruno Latour (1994a, 1994b, 2012). Nesse sentido, buscou-se aporte teórico nos trabalhos de diversos autores que seguem o pensamento latouriano, incluindo André Lemos (2013, 2020), Lúcia Santaella e Tarcísio Cardoso (2015), entre outros.

O vídeo selecionado para o presente estudo de caso foi escolhido com base em um mapeamento da plataforma em busca de uma amostra representativa, utilizando as hashtags: #corinhodefogo, #pentecostal, #pentecostalraiz, #corinhopentecostal, #corinho e #pentecostal. Durante a extração, foi identificado o canal Mistério Fino, que possui 1,1 milhão de seguidores e 9,2 milhões de curtidas, dedicado exclusivamente à divulgação de vídeos de corinhos de fogo. Por isso, direcionamos nossa análise para um vídeo específico de grande repercussão do canal, que foi escolhido justamente por ser o mais visualizado e com o maior engajamento (medido em número de curtidas e comentários) do canal Mistério Fino (que se destaca como vimos, por ser um canal de grande alcance especializado na divulgação exclusiva de vídeos de corinhos de fogo). A presente pesquisa utilizou abordagem qualitativa com análise de 375 comentários de um vídeo do canal na plataforma de vídeos curtos Kwai. A coleta dos dados foi realizada manualmente: os comentários foram transcritos integralmente para uma planilha, excluindo-se apenas mensagens compostas exclusivamente por emojis. A análise foi conduzida pelos próprios autores, que criaram um léxico com palavras-chave associadas a dez categorias temáticas (como reprovação, heresia, afro, bíblia, insanidade, entre outras). A planilha estruturou-se com colunas para comentário, categorias atribuídas (podendo conter mais de uma por comentário), palavras-chave e quantidade de curtidas. A leitura foi feita linha a linha, e 75 comentários (20% do total) foram classificados em múltiplas categorias, evidenciando a complexidade discursiva do material. A análise textual foi realizada manualmente, sem softwares automatizados, com codificação sistemática baseada no léxico elaborado. A planilha com os dados permanece privada por ser parte de pesquisa em andamento, mas os procedimentos estão descritos com clareza suficiente para permitir replicação futura. A metodologia adotada, articulada ao referencial teórico da mediação técnica, permite compreender como as plataformas digitais moldam práticas religiosas e discursos sociais, reforçando a importância da abordagem qualitativa sistemática no campo da comunicação.

A plataforma Kwai[3] foi escolhida como recorte para a etapa atual da pesquisa por ser uma plataforma de rede social com características peculiares para se estudar o objeto de pesquisa. Os vídeos curtos da plataforma permitem de forma gratuita que os usuários criem, compartilhem ou comentem vídeos muito rapidamente; dessa forma, os vídeos do Kwai costumam ser mais espontâneos, com mais foco nos compartilhamentos e interações dos usuários e menos foco em superproduções do mercado audiovisual. Nesse sentido, a fruição tecnicamente mediada da música gospel via plataforma Kwai difere da do Youtube, por exemplo. Os vídeos do Kwai são, inclusive, muitas vezes, captados por usuários comuns em movimento, o que se traduz em uma produção mais espontânea e menos mercadológica de vídeos. O que não é o caso, por exemplo, de grandes canais de música gospel do Youtube, que não apenas divulgam grandes produções do universo gospel, como também acabam atraindo um número grande de seguidores.

Assim, deve estar claro o objetivo desta etapa de pesquisa, mas no intuito de reforçar o que pretendemos com o presente recorte, vale dizer que o objetivo deste artigo é discutir a agência sociotécnica de tais plataformas na experiência do corinho de fogo, direcionando a atenção mais especificamente para as mediações referentes à interface do Kwai e para os comentários postados espontaneamente pelos usuários da plataforma.

 

A mediação técnica da plataforma de vídeos Kwai

 

Mediação técnica é uma ideia que tenta trazer para o centro do debate sobre tecnologia, no caso, a tecnologia digital de comunicação, os agentes que estão no meio do processo de reconfiguração da esfera social em questão. Para Latour, mediação técnica é uma propriedade da relação entre a tecnologia e o ser humano que a utiliza, de modo que quando o curso das ações de ambos é alterado, então atuou aí o princípio da mediação, que deve ser entendido como um “deslocamento, deslize, [...] a criação de uma conexão que não existia antes e que em algum grau modifica os dois elementos ou agentes” (Latour, 1994b, p. 32).

No presente caso, o fenômeno do corinho de fogo está sendo entendido como um fenômeno reconfigurado pela fruição tecnicamente mediada pela plataforma Kwai. Para compreender o que é transportado para e na plataforma digital, é essencial considerar tanto os humanos envolvidos — os criadores, os consumidores de conteúdo, as comunidades religiosas — quanto os não-humanos — especialmente os algoritmos de recomendação das plataformas, a inteligência artificial presente e os próprios vídeos como objetos de mediação. Esses elementos são chamados por Latour de actantes, isto é, algo que faz fazer, faz falar, ou leva a fazer algo (Latour, 2012, p. 309). Ou seja, actante é “tudo aquilo que gera uma ação, que produz movimento e diferença, podendo ser humano ou não-humano. É na realidade, o ator da expressão ‘ator-rede’” (Lemos, 2013, p. 42). Eles não apenas circulam, mas interagem e se influenciam mutuamente, criando uma rede complexa de associações em constante transformação.

Essa mediação “dos artefatos digitais é hoje parte intrínseca do nosso cotidiano” (Lemos, 2013, p. 22), e por mais específica que seja em cada plataforma, é possível perceber como eles afetam tanto a produção quanto a recepção do conteúdo. Pensando a partir dessa conjuntura, Bruno Latour propõe uma visão não antropocêntrica das associações entre humanos e não-humanos, argumentando que essas associações constituem o social. Nesse sentido, os corinhos de fogo constituem elementos ativos que medeiam a percepção e o significado de práticas religiosas na comunidade evangélica pentecostal e fora dela. No caso dos corinhos de fogo, pode ser observada mais do que a simples disseminação de músicas pentecostais. O que circula são práticas devocionais, (des)afetos e disputas, ou seja, cada visualização, curtida e/ou comentário é um ato que não apenas redistribui o conteúdo, mas também reconfigura a rede e os significados associados a esses corinhos. Isso é consistente com a visão de Latour, pela qual o social não é uma estrutura estática, mas um processo dinâmico de associações e dissociações. Isto porque Latour entende o social pela sua raiz etimológica do latim socius, que pode apontar tanto para o sentido de sociedade quanto para o de associação, e Latour prefere o último sentido.

 

O que se entende, quase sempre, por “explicação social”? O acréscimo de outro ator que transmitirá aos já descritos a energia necessária para agir. Mas se você tiver de acrescentar algum, então a rede não está completa. E se os atores já reunidos não possuírem energia suficiente para agir, não são “atores”, e sim meros intermediários, bobos, fantoches. Não fazem nada e não deveriam constar da descrição. (Latour, 2012, p. 213)

 

Ou seja, para dar a devida dignidade a todos os atores, Latour pretende chamar a atenção para o movimento associativo que constitui o social. Sobre esse aspecto Lemos (2013) salienta que

 

[...] a rede é o próprio movimento associativo que forma o social. Ela é circulação, a inscrição de influências de actantes sobre actantes, tradução, mediação até a sua estabilização como caixa-preta. A rede constitui o espaço e o tempo na mobilidade das traduções e na fixação das estabilizações e pontualizações (Lemos, 2013, p. 53-54).

 

Esse movimento contínuo de associações reflete a perspectiva de Latour, segundo a qual o social é um movimento dinâmico de associações entre actantes, em que as influências circulam, são discutidas, disseminadas e se agenciam, moldando a sociedade em um processo dinâmico não antropocêntrico e imanente (Lemos, 2013). Os vídeos publicizados (artefatos) se tornam pontos de tensão em que práticas culturais e tecnológicas fazem surgir um público e, em uma abordagem não dualista, essa condição do fenômeno é imanente e subsiste através da mediação técnica ali apresentada. Neste ponto, Lemos (2013) destaca que “tudo o que existe, existe em relação, precisa passar por outros para continuar seu caminho de subsistência. A associação é a mediação” (Lemos, 2013, p. 60).

Essa mediação ocorre quando os atores humanos e não-humanos envolvidos com o fenômeno cultural gospel em questão formam, por meio dessa associação, uma nova experiência religiosa, mediada não só pelas palavras, ritmos, acordes e melodias dos corinhos de fogo, mas também pelas tecnologias digitais que os veiculam — que inclui ainda os algoritmos, a interface da plataforma, a interação artificial por bot[4] ou IA que incentiva os usuários a interagirem etc. —, além das próprias interações dos usuários que expõem suas percepções nos comentários. Sobre esse mecanismo mediador chamado sociotécnico, Santaella e Cardoso (2015) argumentam que seu modus operandi “não é uma característica humana nem não humana, mas uma propriedade da relação” (Santaella; Cardoso, 2015, p. 174), isto é, do “social” no sentido expandido que inclui ambas as partes, consideradas simétricas, de um social em recriação, gerado pela mediação técnica, no sentido empregado por Latour. Isto é, “o conceito de mediação técnica exige que o social seja visto como o produto de uma associação entre atores humanos e não humanos, funcionalmente simétricos” (Santaella; Cardoso, 2015, p. 168).

Do ponto de vista neomaterialista, o Kwai não é meramente uma tecnologia neutra, isto é, um canal passivo para a transmissão de conteúdo, mas um agente ativo que medeia e, de certo modo, promove interações novas. São essas interações — que configuram o social novo, uma junção de elementos em um conjunto maior, uma composição (Latour, 2012, p. 51-55) que caracterizam o fenômeno analógico-digital do corinho de fogo e que estamos interessados em mensurar e descrever através da interface e também a partir da percepção que os usuários deixam na plataforma através dos comentários. Esses atores podem influenciar a forma como o fenômeno é percebido e disseminado. Sobre a interface do Kwai — para este artigo, estamos focando apenas na versão para celular —, é importante dizer que as qualidades visuais da interface valorizam o vídeo que está ativo, que toma a tela inteira do celular, mas também pretendem engajar no usuário a interação com o vídeo, já que há botões bastante claros na lateral direita de curtir, comentar, compartilhar e baixar o vídeo. Quando o usuário clica em comentários, a interface muda, o vídeo fica menor e na parte de cima da tela aparece um retângulo branco com os comentários, que o usuário pode rolar para ver mais, bem como uma caixa de texto para o usuário escrever seu comentário, além de uma série de emoticons para o usuário reagir aos comentários. Toda a usabilidade da interface é bastante intuitiva, conforme é possível ver na figura 1 de um vídeo de corinho de fogo na plataforma Kwai acessado por smartphone:

 

Figura 1 – Vídeo de corinho de fogo

Uma imagem contendo mesa, homem, mulher, pessoas

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.       

Fonte: https://kwai-video.com/p/4kA6IBCd.

 

Ainda sobre a interface, vale dizer que os aspectos visuais são reflexos da política da plataforma e de seus mecanismos de engajamento, que, focados na interação rápida e fácil, elaboram uma mediação técnica propícia para valorizar a interatividade na experiência do espectador.

A mediação sociotécnica permite que os usuários se expressem livremente, compartilhando diferentes opiniões sobre os vídeos. Nos comentários, observam-se reações variadas, como aprovação, crítica, ironia e até o desejo de participar do culto. Essa diversidade de percepções amplia o alcance do fenômeno religioso, que sai do espaço do templo e ganha visibilidade pública.

 

Figura 2 - Comentários da IA-Kia e do usuário do KWAI

Interface gráfica do usuário, Texto, Aplicativo, chat ou mensagem de texto

Fonte: https://kwai-video.com/p/3CslcmmI.

 

Essa interface que exibe o vídeo e pequenos fragmentos de comentários é acrescida de uma camada de incentivo extra, por parte de uma interação artificial do Kwai, chamada pela plataforma de IA-Kia, sugerindo que se trata de um sistema de inteligência artificial. O que a interação verbal automatizada parece tentar produzir é um estímulo a mais nos movimentos empreendidos pelos usuários quando tecem seus comentários. O que nos interessa saber sobre esta interação é se existem traços de que os comentários dos usuários foram encorajados pela mediação digital. Sobre isso, o que foi observado é que apesar de a interface ser amigável para a funcionalidade de escrita de comentários, a mensagem verbal da escrita automatizada não tem tantas curtidas e não tem respostas a ela. Na figura 2, podemos ter uma ideia do conteúdo textual dos poucos comentários que são feitos por não-humanos.

Em princípio, uma inserção automatizada de comentários da IA-Kia tem o potencial de influenciar a maneira como as opiniões se arranjam, já que suas mensagens deixariam de ser apenas expressões espontâneas e passam a ser práticas causadas/provocadas por artefatos tecnológicos. No entanto, como não foi possível verificar uma ação de conversação entre a IA-Kia e usuários humanos, o máximo que podemos afirmar é que a funcionalidade de escrita automatizada pela plataforma faz parte da construção do sociotécnico e compõe uma rede de mensagens, sendo, portanto, parte material do novo social que se constrói conjuntamente com os usuários da rede. Essa perspectiva dialoga com a análise de Lemos (2020), que ressalta a importância de

 

[...] reconhecer a necessidade de enfatizar aspectos materiais e sensórios das práticas midiáticas. [...] uma posição sintética, atenta a como as ações enraízam-se nas práticas, nos espaços, nos objetos, indo além (melhor seria dizer, aquém) das infraestruturas (Lemos, 2020, p. 58).

 

Este aspecto da materialidade do digital reforça a importância de analisar não apenas as infraestruturas técnicas das plataformas, mas também as interações que podem moldar novas práticas sociais. Ao adotarmos essa perspectiva associativa é possível identificar como diferentes grupos interpretam os corinhos e como essa dinâmica comunicacional influencia a produção e disseminação do fenômeno na plataforma digital, destacando a importância dos artefatos tecnológicos e algorítmicos na construção da opinião pública.

Desse modo, a própria tecnicidade da plataforma é um actante latouriano, na medida em que, para Latour, actante é aquele que “faz o outro fazer” (Santaella; Cardoso, 2015). As interações humanas (socius) que são incentivadas pelo modo de fazer (techné) próprio da plataforma se hibridizam, isto é, se misturam e operam como uma verdadeira mediação sociotécnica. Desse modo, a natureza rápida e frequentemente improvisada dos vídeos no Kwai pode ressoar de maneira peculiar entre os espectadores, criando uma sensação de imediatismo e informalidade, o que instiga a reação dos usuários, seja por meio de curtidas ou pelos comentários. Nesse sentido, nas palavras de Santaella e Cardoso (2020):

 

[...] a ação do que é meio, a mediação, corresponde, no pensamento latouriano, a um acoplamento, uma veiculação, um agenciamento que altera a própria rede, permitindo ao antropólogo/epistemólogo conhecer as forças que atuam na formação dos coletivos (Santaella; Cardoso, 2020, p. 18).

 

Nessa perspectiva, os comentários dos usuários alteram e incentivam a rede de entrega de vídeos ao público, que nem sempre busca conteúdo evangélico, mas que são alcançados por alguma similaridade dos conteúdos. Os rastros deixados nos comentários podem ser um desses traços de similaridade que afetam a rede algorítmica do Kwai, visto que o usuário molda o comportamento do algoritmo por meio dessas interações e a partir de fatores como engajamento, tempo de retenção e padrões de comportamento — os conteúdos são sugeridos e visibilizados. Desse modo, quanto mais usuários interagem com conteúdos relacionados aos corinhos de fogo, cria-se uma rede de disseminação que influencia o comportamento do algoritmo e impulsiona tendências, moldando a rede sociotécnica e os afetos circulados nela. De acordo com Santaella e Cardoso (2015), a intencionalidade dos produtos e seus efeitos são oriundos de uma amálgama complexa da rede de interações que envolve tecnologia, criadores, plataformas, espectadores, de tal modo que

 

[...] não é possível atribuir uma causa a um efeito, pois os efeitos são sempre multi causados ou, mais precisamente, são produtos de uma interação. Intenção, desse modo, deixa de ser predicado de atores. Se há finalidade, intencionalidade em qualquer agenciamento sociotécnico, ela só pode existir para e no coletivo. É um poder disponível apenas para uma associação, nunca para um sujeito. Este é o fundamento da ideia de mediação, relacionada a um compartilhamento de responsabilidades da ação entre vários actantes, respeitando a ação de todos os envolvidos na técnica em questão (Santaella; Cardoso, 2015, p. 177).

 

A citação de Santaella e Cardoso (2015) destaca que a intencionalidade e os efeitos em qualquer agenciamento sociotécnico são resultados de uma interação coletiva. Isso implica que a mediação técnica dos corinhos de fogo não é simplesmente uma questão de escolha individual ou capacidade técnica isolada, mas sim um processo dinâmico onde múltiplos fatores como a plataforma e até mesmo o território e a tessitura social podem interagir para moldar a percepção e a circulação desse conteúdo.

 

Um mergulho nos dados: o que revelam os números?

 

Para analisar os temas que os usuários mais expressaram nos comentários do vídeo selecionado — Mistério Fino do Pai[5] —, foi feita uma raspagem e organização manual de dados textuais de cada um dos 345 comentários dos usuários. Como dissemos na introdução, foi criada uma planilha para identificar controvérsias emergentes e verificar a segunda hipótese. Assim, após a leitura geral dos comentários, começamos a identificar alguns padrões, que foram então classificados em categorias. Identificamos dez categorias: (1) reprovação [comentário com tom de reprovação]; (2) aprovação [comentários com tom de aprovação]; (3) neutro [comentário com valor semântico não identificado]; (4) heresia [comentário acusando de heresia]; (5) insanidade [comentário associando alguém de insanidade]; (6) bíblia [comentário com referência explícita a Bíblia]; (7) demônio [comentário com referência à figura do demônio]; (8) afro [comentário com referência à religiosidades de matrizes africanas]; (9) gospel [comentários com referência à cultura gospel/evangélica]; (10) musical [comentários com referência a estilos musicais]. Depois de extraídos do vídeo da plataforma Kwai, os comentários foram analisados à luz da teoria da mediação técnica.

 

Figura 3 –: Nuvem de palavras dos comentários

Texto

 

Fonte: elaborado pelos autores

Durante o processo de coleta e análise de dados, identificou-se a frequência de determinadas palavras-chave que refletem os principais temas abordados pelos usuários. Para visualizar os termos mais frequentes nos comentários, foi gerada uma nuvem de palavras (figura 3). A nuvem de palavras foi essencial para a apresentação dos dados, facilitando a análise dos padrões de interação e destacando as principais percepções dos usuários de maneira visualmente intuitiva.

Foi realizada uma análise dos comentários, os quais foram categorizados de acordo com as dimensões da mediação técnica. O objetivo desta análise foi compreender como as expressões dos comentários do vídeo podem ser identificados a partir de tipologias de comentários. Do ponto de vista do conteúdo verbal dos comentários, vale analisar com mais detalhe algumas formas verbais que nos parecem apontar caminhos sobre a questão 2 da pesquisa. As categorias apresentadas como reprovação e heresia sugerem uma subjetividade peculiar quanto à perspectiva do público: abjeção e ceticismo. Essa subjetividade não é apenas uma resposta individual, mas uma produção conjunta que envolve o conteúdo do vídeo, a estrutura da plataforma e o público. Tal percepção é evidenciada pelo sentimento manifestado nos comentários apresentados no quadro 1:

 

Quadro 1 – Comentários dos usuários[6]

HERESIA PURA

tá repreendido obra de engano

VOCES ENTÃO ACHANDO QUE ISSO AI É EVANGELHO É? SE VOCÊ CORRER ATRÁS DA VERDADE, VOCÊ VAI DESCOBRIR QUE ISSO AI É UMA MENTIRA

FICO PENSANDO SE OS DISCÍPULOS FICAVAM FAZENDO ISSO. QUE HERESIA

Fonte: elaborado pelos autores, com base na pesquisa realizada.

 

A percepção é coconstruída pelo funcionamento do algoritmo que decide o que é mostrado a outros espectadores, que por sua vez, também potencializa a visibilidade desses discursos por meio do engajamento. Especificamente, as dúvidas sobre a legitimidade do fenômeno que abarcam os comentários sobre a autenticidade do corinho de fogo, estão no centro da disputa, revelando um ceticismo quanto à originalidade das práticas. A mediação técnica contribui para a construção dessas dúvidas, já que o Kwai, ao permitir a rápida disseminação de conteúdos e comentários, coloca os usuários em contato com uma multiplicidade de visões e fontes de informação.

Assistir ao fenômeno publicizado em um ambiente online, longe do contexto tradicional dos cultos, pode levantar dúvidas sobre sua autenticidade e legitimidade. A questão da verdadeira ou falsa representação, frequentemente abordada no contexto evangélico, reflete um entendimento profundo do que é considerado “de Deus” e o que não é, baseando-se nas crenças e doutrinas da igreja. Essas questões não são apenas desaprovações aleatórias, mas estão enraizadas nos ensinamentos teológicos, que, ao serem reproduzidos nas redes digitais, amplificam e transferem para o espaço digital as tensões comuns ao cotidiano religioso nas igrejas.

Cada componente da rede contribui para a incerteza: o vídeo, enquanto uma representação visual suscita dúvidas quanto à possível veracidade do movimento, questionamento esse transversalizado entre as categorias aqui apresentadas. A plataforma subjetiva comparações ao exibir vídeos semelhantes e o usuário como parte integrante, engaja-se na construção dessa incerteza, curtindo e comentando. A rede de atores técnicos sustenta o processo de questionamento e a própria natureza da plataforma, e a intervenção da IA-Kia (figura 2) fricciona os actantes em uma multiplicidade de informações e perspectivas que contribui para a construção da dúvida e do debate na rede digital.

As palavras mais recorrentes ilustradas na figura 3 (nuvem de palavras) referem-se às categorias Afro e Demônio. Não por acaso, esse dado aponta para uma percepção cultural que relaciona o corinho de fogo a outras tradições religiosas, evidenciando tensões inter-religiosas. Essa associação não é neutra, mas reflete preconceitos históricos e construções sociais que, muitas vezes, desqualificam ou demonizam religiões de matrizes africanas no Brasil. O uso de termos, como demônio, para descrever elementos de outras tradições religiosas, especialmente as de matrizes africanas, revela um processo de estigmatização e de racismo religioso. Esse discurso reforça a dicotomia entre sagrado e profano, muitas vezes posicionando o cristianismo evangélico em oposição às religiões afro-brasileiras, vistas como outro a ser combatido ou neutralizado. Essa análise evidencia como o digital não apenas reflete tensões sociais, mas também as amplifica. A estrutura algorítmica do Kwai, ao priorizar conteúdos com altos índices de interação, contribui para destacar discussões polarizadas, expondo as subjetividades dos usuários e seus conflitos ideológicos. Dessa forma, a plataforma não é um palco neutro, é um agente ativo na circulação de sentidos, moldando e sendo moldada pelas dinâmicas culturais de seus usuários.

Os comentários que comparam o corinho de fogo a elementos de religiões afro-brasileiras, utilizando termos como Exu, macumba, candomblé e umbanda, também revelam uma visão que os enxerga como uma expressão mística semelhante a outras práticas religiosas. A plataforma Kwai atua como mediadora ao possibilitar essas interações, reunindo diferentes percepções religiosas em um único espaço digital, o que facilita a exposição e a comparação de culturas religiosas.

 

Quadro 2 – Comentários dos usuários

candombléia de exu!

Ei como é o nome desse mestre q tá encorporado nesse q se dis pastor é Zé pilantra é? e a pomba gira q está nessa q se dis irmã e tá fazendo imposição de mãos pra vender logo mas como ungido né e aí o fim realmente tá próximo mesmo viu

esse é o famoso candomblé universitário

rituais o forte dessa igreja e fazer batuque, rodar como umbanda, terreiro

Fonte: elaborado pelos autores, com base na pesquisa realizada.

 

As comparações resultam do movimento associativo entre as tecnologias da plataforma, os conteúdos gerados pelos usuários e os algoritmos de recomendação. Palavras-chave como umbanda e terreiro, quando inseridas nos comentários dos vídeos, funcionam como marcadores semânticos, sinalizando aos algoritmos uma relação entre os corinhos de fogo com esses signos. Dessa forma, os conteúdos relacionados aos corinhos de fogo são sugeridos tanto aos usuários que consomem conteúdos sobre umbanda e candomblé quanto àqueles que se identificam com o universo evangélico, promovendo um encontro virtual entre diferentes grupos. Logo, o ambiente digital desempenha um papel significativo na forma como essas comparações são percebidas e reflete relações de poder que se manifestam nas interações online, onde o ataque a certas práticas religiosas se tornam evidentes.

Os comentários analisados revelam dois pontos principais. Primeiro, mostram como práticas religiosas antagonizadas se entrelaçam e se complementam em um jogo tenso de disputas simbólicas e de práticas ritualísticas. A comparação entre esses campos religiosos ocorre porque há elementos comuns entre eles, indicando uma interação constante, tanto prática quanto teórica. Em segundo lugar, a comparação sugere que os usuários têm familiaridade com as religiões afro-brasileiras, o que lhes permite identificar e associar práticas dessas religiões no contexto evangélico. Assim, os comentários indicam que os pentecostais representados no vídeo incorporam elementos afro-religiosos em sua liturgia. Por fim, as comparações resultantes da interação entre os usuários e a mediação técnica da plataforma não são apenas manifestações de opinião, mas processos dinâmicos que exibem a complexidade e tensões do campo religioso brasileiro.

Além disso, a categoria insanidade apareceu nos comentários associando o corinho de fogo gravado em vídeo à insanidade — o que se mostrou bastante relevante. Termos como loucura, piada ou palhaçada são comuns, revelando uma postura irreverente e muitas vezes sarcástica na recepção do corinho de fogo. A ação é uma construção coletiva entre o espectador, o vídeo e a plataforma, que na interface do Kwai, ao permitir uma comunicação anônima e instantânea, fomenta um ambiente onde o escárnio, aspectos de humor e estranhamento das performances se destacam. Esses comentários não apenas expõem um julgamento individual, mas manifestam uma construção coletiva de significados, transversal e imbricada entre os conceitos de humor, crítica e estranhamento, como se pode ver a seguir:

 

Quadro 3 – Comentários dos usuários

Deus não conduz ninguém ao DESCONTROLE MENTAL E EMOCIONAL. O Espírito que é Santo. Te leva para o adorar EM ESPIRITO E EM VERDADE. Jamais com loucuras

bando de palhaços

Aí tá numa brisa louca mesma!!! OS espíritos dá confusães baixou

Fonte: elaborado pelos autores, com base na pesquisa realizada.

 

Vale destacar que a repetição de alguns termos como palhaço e palhaçada agem como um marcador de ironia, indicando que o autor do comentário não leva a sério o que está sendo representado nos vídeos. Outro aspecto dessa categoria são termos religiosos e críticos utilizados, sendo que a maioria das expressões não apresenta uma carga emocional clara suficiente para ser identificada como positiva ou negativa. O ambiente digital se configura, assim, como um espaço onde as fronteiras entre a crítica séria e o escárnio são borradas, possibilitando o cruzamento entre diferentes níveis de engajamento emocional e interpretativo.

A categoria neutra, composta por comentários que não apresentam um valor semântico claramente positivo ou negativo, reflete uma zona de ambiguidade interpretativa que é própria das interações em plataformas digitais, apresentando termos com interrogações e/ou isolados de um contexto coesivo. A mediação técnica do Kwai contribui para essas inquietações ao permitir a disseminação rápida do fenômeno, expondo os usuários a conteúdos que consideram controversos. Esse movimento é um efeito da agência distribuída entre a plataforma, os espectadores e o próprio fenômeno religioso, ou seja, ao ser replicado e expandido por meio do Kwai, ele assume uma presença material e simbólica significativa, que perturba o possível equilíbrio das redes culturais. A interação entre esses elementos (tecnologia, religião e cultura) gera um efeito de amplificação que é percebido com estranheza por alguns:

 

Quadro 4 – Comentários dos usuários

tem certeza disso?

fica enventando mistério

Que ritual é esse?

Fonte: elaborado pelos autores, com base na pesquisa realizada.

 

Esses comentários demonstram uma postura de observação crítica que se esquiva de julgamentos definitivos. No entanto, ao mesmo tempo, funcionam como marcadores de um certo desconforto ou hesitação diante do corinho de fogo. Essa hesitação sugere que o fenômeno é percebido como algo enigmático, um objeto cultural que, por sua natureza performática e simbólica, desafia as categorias tradicionais de interpretação. Nesse ambiente, a dúvida e o questionamento tornam-se parte de um jogo discursivo em que a falta de clareza ou de alinhamento pode ser interpretada tanto como neutralidade quanto como um convite implícito ao diálogo ou à provocação.

Por outro lado, a categoria Bíblia evidencia que uma parcela do público busca enquadrar o fenômeno do corinho de fogo em termos de doutrina religiosa. Esses comentários apelam para valores morais cristãos, conclamando os espectadores e participantes a se arrependerem e retornarem a uma doutrina considerada genuína. Termos como sair, renúncia e cuidado aparecem com frequência, revelando uma tentativa de restabelecimento de uma narrativa religiosa tradicional:

 

Quadro 5 – Comentários dos usuários

gente sai dessa igreja isso não e deus cuidado errado

TRANSFORMARAM OS ENSINAMENTOS DE JESUS EM COMÉRICIO, ESTÃO USANDO O NOME DE DEUS PRA ENGANAR E ROUBAR OS POBRES, E QUEM ESTA FAZENDO PARTE DESSAS IGREJAS, TAMBÉM PERECERÁ, SAIAM ENQUANTO AINDA É TEMPO

O QUE EDIFICA SALVA LIBERTA EA PALAVRA E RENUCIA ISSO AI SEI LA FAZER O QUE QUEREM

Fonte: Elaborado pelos autores, com base na pesquisa realizada.

 

A mediação técnica do Kwai possibilita a disseminação dessas chamadas, em que elas podem atuar de forma proselitista. Essas manifestações de arrependimento resultam de uma coconstrução entre as vozes dos usuários e as funcionalidades da plataforma. A religião é expandida pelo meio técnico, no qual os usuários tentam recriar espaços de autoridade religiosa, ou seja, ambientes digitais assumem o papel de novos púlpitos. Ademais, observa-se que a maioria dos comentários dessa categoria está em caixa alta, o que sugere a necessidade do usuário de destacar o conteúdo da mensagem, o que revela tensões que envolvem o fenômeno dentro do movimento evangélico. A análise evidencia a importância de entender o papel da mediação técnica nas discussões online e que o corinho de fogo, como fenômeno digital, é constituído e reconfigurado por uma rede de interações bem complexa.

Nesse contexto, a categoria gospel evidencia um conjunto de comentários que remetem à cultura gospel/evangélica, frequentemente imbricados com elementos de reprovação ou referências musicais. Comentários como “queria ver ficar assim com hinos da harpa cristã”, “macumba gospel, isso nunca foi evangelho!” e “mais uma palhaçada gospel” não aparecem isolados, mas em diálogo direto ou indireto com outras categorias, como insanidade, musical e afro, indicando uma sobreposição discursiva significativa, como se vê nos comentários a seguir:

 

Quadro 6 – Comentários dos usuários

timbalada gospel...isto aí é pesado

terreiro de umbanda gospel

mais uma palhaçada gospel. Queria ver ficar assim com hinos da harpa cristã

Fonte: elaborado pelos autores, com base na pesquisa realizada.

 

A transversalidade dessa categoria destaca como a cultura gospel é mobilizada como parâmetro para julgamentos, muitas vezes estabelecendo fronteiras de autenticidade ou pureza religiosa. Termos como “hinos da harpa cristã” aparecem como contrapontos a práticas consideradas desvios ou excessos, sugerindo uma hierarquia dentro do universo evangélico, onde determinadas expressões são aceitas como legítimas enquanto outras são rejeitadas como inadequadas ou contaminadas por influências externas.

A associação com a categoria afro, por meio de expressões como “macumba gospel” “umbanda gospel”, revela tensões históricas e culturais que ligam práticas religiosas a preconceitos racializados. Essa terminologia reflete o processo de estigmatização de elementos considerados estranhos ou ameaçadores à identidade gospel tradicional, reforçando um discurso que tenta delimitar fronteiras rígidas entre o sagrado e o que é visto como estranho ou inadequado. A transversalidade com outras categorias revela como o corinho de fogo se torna um ponto de convergência para discussões mais amplas sobre identidade religiosa, autenticidade cultural e tensões sociais.

Logo, cada categoria de comentários reflete não apenas uma reação individual, mas uma produção coletiva mediada por algoritmos, interfaces e sistemas sociotécnicos que permitem a coconstrução do fenômeno e sua disseminação nas plataformas digitais. Essa dinâmica digital não apenas reproduz tensões já existentes, mas as potencializa, criando novas camadas de significação e circulação cultural.

 

Considerações finais

 

Neste trabalho, discutimos a agência sociotécnica de plataformas digitais na experiência do corinho de fogo, direcionando a atenção, mais especificamente, para as mediações referentes à interface do Kwai e para os comentários postados espontaneamente pelos usuários da plataforma. Vimos que as interações espontâneas por parte dos usuários nem sempre foram pacíficas e neutras, mas ao contrário, foram marcadas por conflitos, especialmente de cunho de intolerância religiosa. Segundo Bispo (2024) “conflitos são micronarrativas midiatizadas fortuitas, porém eficientes, que perpassam o cotidiano de inúmeros sujeitos em nossa sociedade, gerando neles tanto interrogações quanto certezas sobre alguém próximo ou distante” (Bispo, 2024, p.26). Mais até do que ocorre na vida offline, os agenciamentos incitados pela tecnologia e midiatizados pelas dinâmicas mediadas digitalmente marcam a não neutralidade da tecnologia midiática.

Diante do que foi exposto, podemos afirmar que as mediações sociotécnicas da plataforma Kwai de fato reconfiguraram a fruição do corinho de fogo, na medida em que incluíram novas práticas sociais — ou, mais precisamente, sociotécnicas — sobre este fenômeno. No entanto, ao contrário do que esperávamos, não foi possível verificar que a escrita verbal automatizada da IA-Kia nos comentários influenciou a interação do público com o vídeo selecionado para o estudo de caso. Ao contrário, nenhum comentário de agente humano fez qualquer referência a algum conteúdo escrito pela IA-Kia, contudo, essa ferramenta de mediação técnica não foi suficientemente explorada ao longo da pesquisa. Para estudos futuros, seria relevante explorar como sistemas automatizados, como a IA-Kia, em termos de suas capacidades de persuasão e moderação, podem moldar outras experiências sociotécnicas dos usuários, influenciam o comportamento nas plataformas digitais e se são capazes de gerar alterações na forma como as interações sociais e religiosas são mediadas tecnicamente.

Com relação à segunda hipótese, foi possível confirmá-la, na medida em que a análise dos comentários reforçou que no sociotécnico atravessado pelas agências do humano e do não-humano, podemos dizer que a comunidade de fiéis do vídeo em questão expressou majoritariamente sentimentos negativos. Foi possível notar também que tais sentimentos não são negativos em relação à temática do corinho de fogo em geral, são sentimentos de ataque às religiões de matrizes africanas, com grande incidência de expressões do campo semântico negativo e de expressões de insulto no mesmo comentário associados às religiosidades como o candomblé e a umbanda, bem como suas entidades. Isto reforça a hipótese de que de fato há intolerância religiosa, já que boa parte dos comentários critica o próprio corinho de fogo — enquanto dança e música — representado no vídeo como sendo errado, não relacionado ao deus cristão, mas relacionado a entidades opostas ao deus cristão (como Exu, demônio). Apesar das categorias identificadas, os discursos não são respostas encaixotadas, mas uma produção coletiva atravessada por uma complexidade de percepções e interpretações que o próprio fenômeno suscita. Elas conseguiram ajudar a captar algumas percepções dos usuários que se manifestaram a partir dos incentivos sociotécnicos ao diálogo e instauraram novas controvérsias.

O Kwai, deste modo, possibilitou a rápida disseminação de conteúdos e comentários e funcionou como um amplificador de vozes e opiniões, muitas vezes contraditórias com os próprios princípios cristãos. A perspectiva teórica da mediação técnica contribuiu para a construção de uma análise sobre a complexidade do fenômeno e as tensões entre as diversas questões que ali emergem. Por fim, os diversos atores que compõem essa rede sociotécnica revelam as forças em ação na construção do coletivo, evidenciando elementos que não podem ser considerados de forma desvinculada, mas que devem ser compreendidos em sua complexidade reticular própria da associação entre atores humanos e não-humanos, confirmando a contribuição de todos os actantes na composição sociotécnica em questão e no papel fundamental da cultura digital nas novas práticas culturais e religiosas.

Embora o estudo tenha apresentado importantes contribuições, algumas limitações precisam ser consideradas. A pesquisa se baseia em um único vídeo do canal Mistério Fino, o que limita a amostra de comentários e não reflete a diversidade de reações que poderiam surgir de outros vídeos ou contextos. Outro aspecto relevante é a limitação do estudo à plataforma Kwai, sem comparações com outras plataformas digitais, como YouTube ou TikTok, que possuem características distintas e poderiam oferecer uma perspectiva mais ampla sobre a mediação digital dos corinhos de fogo. Portanto, estudos futuros poderiam expandir a amostra, diversificar as plataformas analisadas e investigar mais profundamente as ferramentas automatizadas de interação, ampliando o entendimento sobre a dinâmica sociotécnica dessas plataformas e do fenômeno.

 

Referências

 

ALBUQUERQUE JUNIOR, Valdevino. “Dá glória e receba!”: expressão mítico-ritual nos “corinhos de fogo” no culto [neo] pentecostal. 2014. Dissertação (Mestrado em Ciência da Religião) — Instituto de Ciências Humanas, Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora/MG, 2014.

BISPO, R. É fã ou hater? interrupções religiosas e colapsos morais nas redes sociais digitais de artistas evangélicas. Religião & Sociedade, São Paulo, v. 44, n. 3,  p. 1-31, 10 fev. 2024. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rs/a/GW8vdPnqZJtWkTpyzRkz8yQ/?format=pdf&lang=pt. Acesso em: 2 maio 2025.

G1. Kwai: o que é e como funciona concorrente do TikTok que tem mais de 1 bilhão de usuários. Site G1 Globo.com, postado em 15 out. 2021. Disponível em: https://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2021/10/15/rival-do-tiktok-como-funciona-o-kwai-app-de-videos-curtos-com-1-bilhao-de-usuarios.ghtml. Acesso em: 04 set. 2024.

LATOUR, B. Reagregando o social: uma introdução à teoria do ator-rede. Salvador: Edufba, 2012.

LATOUR, B. On technical mediation. Common knowledge, [S. l.], v. 3, n. 2, p. 29-64, 1994b. Disponível em: http://www.bruno-latour.fr/fr/node/234.html. Acesso em: 2 maio 2025.

LATOUR, Bruno. Jamais fomos modernos. São Paulo: Editora 34, 1994a.

LEMOS, André; BITENCOURT, Elias. Sete pontos para compreender o neomaterialismo. Galáxia, São Paulo, v. 46, p. 1-10, 2021. Disponível em: https://doi.org/10.1590/1982-2553202152017. Acesso em: 29 mar. 2025.

LEMOS, André. Epistemologia da comunicação, neomaterialismo e cultura digital. Galáxia, São Paulo, n. 43, p. 54-66, 2020. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/galaxia/
article/view/43970. Acesso em: 30 jan. 2025.

LEMOS, André. A comunicação das coisas: teoria ator-rede e cibercultura. São Paulo: Annablume, 2013. v. 1.

LOPES, Arthur Costa. Funk e gospel como construções acústicas do atlântico negro: uma análise através dos corinhos de fogo. Revista ETHNE, Anápolis, GO,  v.1, n. 1, p.54-70, 2022. Disponível: https://anais.unievangelica.edu.br/index.php/ethne/article/view/6949. Acesso em: 2 maio 2025.

PEREIRA, Réia Silvia Gonçalves. “Corinho de fogo é para guerrear”: êxtase e ritual nos corinhos de fogo pentecostais. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO INTERCOM, 43., 2020, Salvador, BA, Anais [...]. Salvador, BA: Universidade Federal da Bahia, 2020, p. 1-17.

SANTAELLA, M. L.; CARDOSO, T.. Mediação segundo Peirce e Latour. Lumina, Juiz de Fora, MG, v. 14, n. 3, p. 5-21, 2020. Disponível em: https://periodicos.ufjf.br/index.php/lumina/article/view/31001. Acesso em: 30 jan. 2025.

SANTAELLA, L.; CARDOSO, T. O desconcertante conceito de mediação técnica em Bruno Latour. Matrizes, São Paulo, v. 9, n. 1, p. 167–185, 2015. Disponível em: https://www.redalyc.org/articulo.oa?id=143039560010. Acesso em: 1 fev. 2025.

SPYER, Juliano. Povo de deus: quem são os evangélicos e por que eles importam. São Paulo: Geração Editorial, 2020.

 

Recebido em: 28/12/2024.

Aceito em: 02/05/2025.

 

DOI: https://doi.org/10.46906/caos.n34.72628.p110-132

 

 



* Bacharel em Comunicação Social pela Unicarioca, Brasil; mestrando em Comunicação e Cultura Contemporâneas pelo Póscom (UFBA), Brasil. E-mail: nilson_an@hotmail.com.

** Doutor em Tecnologias da Inteligência e Design Digital e mestre em Comunicação e Semiótica, ambos pela PUC-SP, Brasil. Professor Adjunto da Faculdade de Comunicação da UFBA, Brasil. E-mail: tscardoso@gmail.com.

[1] O termo pentecostal remete ao evento bíblico de Pentecostes, no qual o Espírito Santo foi derramado sobre os discípulos de Jesus. No entanto, é importante ressaltar que, apesar de representarem a maioria dentro do movimento evangélico, existe diversidades internas, com diferentes expressões, e o corinho de fogo é apenas uma delas (Spyer, 2020).

[2] O neomaterialismo é uma abordagem que enfatiza a importância da interação entre humanos e não-humanos, reconhecendo a agência dos objetos e artefatos em processos sociais. Ele propõe a análise dos fenômenos considerando as condições materiais e as associações entre diferentes elementos, sem privilegiar unicamente o humano, mas também as forças materiais e tecnológicas envolvidas (Lemos; Bitencourt, 2021).

[3] A plataforma Kwai, que é conhecida no Brasil, é uma versão internacional do aplicativo chinês Kwaishow, conhecido por promover influenciadores e eventos curtos, como desafios de dança e concursos em datas especiais (G1, 2021).

[4] Bot é a abreviação de robot (robô em inglês) e se refere a um programa de software que realiza tarefas automáticas na internet. Eles são usados para interagir com usuários em plataformas de mensagens, respondendo automaticamente a perguntas.

[5] Cf. https://kwai-video.com/p/3CslcmmI. Acesso em : 20 de dezembro de 2024.

[6]A transcrição dos comentários dos vídeos foi realizada de maneira integral, preservando as características originais, incluindo o uso de maiúsculas e minúsculas, ausência de vírgulas, pontos finais e de exclamação em alguns casos.

 

_____________________

Desenho de um círculo

Descrição gerada automaticamente com confiança médiaÉ permitido compartilhar (copiar e redistribuir em qualquer suporte ou formato) e adaptar (remixar, transformar e “criar a partir de”) este material, desde que observados os termos da Licença CC BY-NC 4.0.